Política Curitiba

Greca à esquerda, Pimentel à direita

Na noite de 25 de outubro, Rafael Greca foi ao Largo da Ordem comemorar a reeleição de Lula, com a Constituição debaixo do braço. Não há acordo nem anúncio, mas o gesto abre uma porta que Luciano Ducci já atravessou em 2024 e que Eduardo Pimentel fez questão de fechar.

Por Redação CWBUZZ6 min de leitura
Greca à esquerda, Pimentel à direita
Reprodução internet
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Político que muda de lado no segundo turno não é novidade, e a maioria dessas mudanças morre na semana seguinte à eleição. Um ex-prefeito que declara voto no presidente vencedor costuma estar apenas se posicionando para a próxima rodada de cargos. Lido assim, o vídeo de Rafael Greca no Largo da Ordem seria só mais um caso de quem pula no barco certo na hora certa.

O problema é que Greca não pulou no barco de ninguém. O partido dele, o MDB, declarou apoio a Flávio Bolsonaro no Paraná. O candidato a governador da chapa em que ele era vice, Sandro Alex (PSD), e o padrinho dessa chapa, Ratinho Junior, também. Greca ficou sozinho do outro lado, perto de jovens de esquerda e longe de todos os aliados com quem governou Curitiba.

Não há evidência de que ele negocie uma candidatura com o PT. Mas há um precedente recente, um espaço vazio e uma direita que já tem dono na cidade. Juntas, essas três coisas tornam a pergunta sobre 2028 menos absurda do que parecia há um mês.

Foto: Divulgação PSD
Foto: Divulgação PSD

Greca: o sinal que ninguém pediu

Rafael Greca governou Curitiba por três mandatos, de 1993 a 1996 e de 2017 a 2024, e foi ministro do Esporte e Turismo no governo Fernando Henrique. Na maior parte da carreira, esteve no campo adversário do PT na disputa pela prefeitura. Em 2026, foi candidato a vice-governador na chapa de Sandro Alex, apoiada por Ratinho Junior. A chapa ficou em segundo lugar, com 25,35% dos votos válidos, e Sergio Moro (PL) se elegeu no primeiro turno com 50,11%.

Duas semanas depois, em 19 de outubro, circulou nas redes um vídeo de Greca numa conversa com músicos. Sem declarar voto formalmente, ele criticou a possibilidade de subordinação do Brasil aos Estados Unidos, alertou para riscos à educação e à cultura e defendeu o financiamento público das artes. "Eu não posso me calar, porque, se eu me calasse, as pedras falariam", disse. Na noite da vitória de Lula, foi ao Largo da Ordem com um exemplar da Constituição e repetiu que "a democracia não termina quando as urnas se fecham". Sobre as críticas que recebeu por apoiar Lula, resumiu: "Não me abala."

Na comemoração, posou ao lado de Angelo Vanhoni, deputado estadual eleito e um dos nomes históricos do PT em Curitiba, que publicou o vídeo da visita nas redes. A foto tem um peso simbólico. Durante três décadas, o grupo político de Greca e o PT de Vanhoni estiveram em lados opostos da disputa pela prefeitura.

Ducci: o caminho já foi testado

Greca não seria o primeiro ex-prefeito de centro a se aproximar da esquerda curitibana. Luciano Ducci, que comandou a cidade entre 2010 e 2012 e foi vice de Beto Richa, disputou a prefeitura em 2024 pelo PSB com Goura (PDT) como vice. A coligação reunia PSB, PDT e a federação do PT, PCdoB e PV. Gleisi Hoffmann foi à convenção e disse que a vitória de Ducci seria a vitória da democracia.

O resultado mostra o tamanho e o limite desse arranjo. Ducci fez 181.770 votos, 19,44% dos válidos, e ficou em terceiro, atrás de Eduardo Pimentel (PSD), com 33,51%, e de Cristina Graeml (PMB), com 31,17%. Fora do segundo turno, ficou neutro. A frente juntou a esquerda inteira, mas não conseguiu romper o teto que o campo tem em Curitiba.

A lição para 2028 é dupla. A esquerda da cidade já aceitou abrir mão da cabeça de chapa para um nome de fora do PT, e isso deixa de ser tabu. Ao mesmo tempo, um nome de centro sozinho não bastou. Ducci levou a estrutura da esquerda, mas não trouxe eleitor suficiente do outro lado.

Pimentel: o caminho inverso

Agora o contraponto. Eduardo Pimentel, vice de Greca por oito anos e seu sucessor na prefeitura, não esperou o segundo turno esquentar. Em 5 de outubro, um dia depois do primeiro turno, publicou um vídeo declarando voto em Flávio Bolsonaro. "Não vou ficar em cima do muro", disse, e afirmou que o Brasil pede mudança.

A escolha não surpreende quem acompanhou 2024. Pimentel se elegeu prefeito com Paulo Martins, do PL, como vice, e venceu o segundo turno contra Cristina Graeml com 57,64% dos votos. Com Moro eleito governador pelo PL e Ratinho Junior sem sucessor, tudo indica que o prefeito vai buscar a reeleição em 2028 ao lado do novo governador e do partido de Bolsonaro, e não do grupo que perdeu em outubro.

O movimento de Pimentel confirma a tese pelo avesso. A direita curitibana já tem candidato para 2028, com máquina, mandato e o apoio de quem vai governar o estado. Para Greca, não sobra espaço nesse campo. O lugar vago fica do outro lado.

Foto: José Fernando Ogura/SMCS.
Foto: José Fernando Ogura/SMCS.

Por que a esquerda precisa de alguém de fora

Parte da explicação é o teto. O PT nunca elegeu um prefeito de Curitiba, e mesmo a frente ampla de 2024 não passou de um quinto dos votos. Para chegar ao segundo turno e vencê-lo, o campo precisa de eleitor que nunca votou na esquerda para prefeito. Um candidato petista raramente traz esse eleitor. Um ex-prefeito que governou a cidade por três mandatos pode trazer.

Outra parte é o recall. Greca é conhecido em todos os bairros e tem uma marca própria, ligada à cultura, aos parques e à história da cidade. Esse patrimônio não depende de partido, e o gesto de outubro mostra que ele está disposto a usá-lo contra os antigos aliados.

E há a conjuntura. Com Lula reeleito, a esquerda curitibana terá o governo federal ao lado em 2028, mas enfrentará Moro no Palácio Iguaçu e Pimentel na prefeitura. Uma disputa entre um nome de esquerda e o candidato do PL repete o roteiro em que o campo costuma perder na cidade. Uma disputa entre Greca e Pimentel, ex-prefeito contra seu antigo vice, muda a natureza da eleição.

Para quem olha 2028

Nada disso faz de Greca um candidato. Ele não anunciou nada, o MDB paranaense está do outro lado e ele terá mais de 70 anos na próxima eleição. Do lado da esquerda, há resistências óbvias a entregar a cabeça de chapa a quem passou décadas como adversário. Um gesto no Largo da Ordem não apaga isso.

O erro seria tratar o episódio como desabafo de fim de campanha e encerrar o assunto. Na política de Curitiba, poucos movimentos de um ex-prefeito com o peso de Greca são gratuitos.

Três sinais vão mostrar se a porta está aberta de fato. Greca continua no MDB ou procura uma legenda com mais liberdade? O PT de Curitiba e o PSB de Ducci passam a citá-lo como parceiro em 2028? E ele volta a aparecer ao lado de nomes da esquerda depois que a festa da eleição acabar?

Pimentel já escolheu o lado em que vai disputar 2028. Greca, por enquanto, só mostrou de que lado não está. Em Curitiba, isso já é notícia.

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