Política

O quarto mandato é do Centrão

Cinco dias depois de vencer Flávio Bolsonaro (PL), Lula já sentou com Alcolumbre, recolocou Pacheco na fila do Supremo e abriu a Esplanada para os partidos que apoiaram o adversário. Com o PL dono de 28 das 81 cadeiras do Senado, a conta da governabilidade nunca foi tão alta.

Por Redação CWBUZZ6 min de leitura
O quarto mandato é do Centrão
Foto: Ricardo Stuckert.
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Todo governo brasileiro negocia com o Centrão, e Lula nunca foi exceção. O PMDB esteve no primeiro e no segundo mandato, e o terceiro distribuiu pastas para MDB, PSD, União Brasil, PP e Republicanos. Dizer que o novo governo terá o Centrão é dizer pouco. O presidencialismo de coalizão funciona assim desde a redemocratização.

O que muda agora é a posição de quem negocia. Lula venceu o segundo turno com cerca de 51,7% dos votos válidos, depois de ficar atrás no primeiro, e vai governar com o Congresso mais desfavorável que já encontrou. O PL terá a maior bancada da Câmara e do Senado a partir de fevereiro. União Brasil, PP e Republicanos apoiaram Flávio no segundo turno. MDB e PSD liberaram seus diretórios.

Nesse cenário, os primeiros movimentos do presidente reeleito apontam todos na mesma direção. Apoio à recondução de Davi Alcolumbre (União-AP) à presidência do Senado, um nome do Senado para o Supremo e ministros escolhidos pelo compromisso de voto. O quarto mandato caminha para ser o mais dependente do Centrão de toda a trajetória de Lula.

Alcolumbre: o fiador do Senado

A partir de fevereiro de 2027, o PL terá 28 dos 81 senadores, o PT terá 9, o MDB 8, PP e Republicanos 6 cada, PSD e União Brasil 5 cada. A maior bancada da Casa terá mais que o triplo da bancada do partido do presidente.

Na segunda-feira seguinte à eleição, Lula recebeu no Alvorada os presidentes das duas Casas, Alcolumbre e Hugo Motta (Republicanos-PB). Os partidos dos dois estavam com Flávio, mas ambos tinham trabalhado pela reeleição de Lula. Antes do segundo turno, Alcolumbre acelerou pautas caras ao governo, como o fim da escala 6x1 e o novo teto do MEI. A contrapartida esperada é o apoio do Planalto à recondução dele à presidência do Senado. Ele precisa de 41 votos e conta com os governistas, a maior parte do Centrão e dissidentes da direita para chegar lá. Os favoritos do PL para enfrentá-lo são Rogério Marinho (PL-RN) e Tereza Cristina (PP-MS).

O detalhe que pesa é o histórico recente. Em abril de 2026, o Senado rejeitou Jorge Messias, indicado por Lula ao Supremo, por 42 votos a 34. Foi a primeira recusa de um nome ao STF em 132 anos, e a imprensa atribuiu a derrota à articulação de Alcolumbre, que queria outro nome na vaga. Lula aprendeu ali quem controla a porta do Senado. Apoiar Alcolumbre agora não é gentileza. É o preço de não perder a próxima votação.

Foto: Ricardo Stuckert.
Foto: Ricardo Stuckert.

Pacheco, cargos e a Esplanada aberta

O nome que Alcolumbre queria no Supremo era o de Rodrigo Pacheco. Ex-presidente do Senado e filiado ao PSB, Pacheco tomou posse como ministro do Tribunal de Contas da União em 30 de setembro, numa articulação conduzida pelo próprio Alcolumbre, com relatoria de Renan Calheiros (MDB-AL). Um mês depois, voltou ao topo da lista de Lula para a vaga de Luís Roberto Barroso, aberta desde outubro de 2025. Segundo O Tempo, a ideia é enviar o nome ao Senado antes do recesso, enquanto o PL ainda não assumiu a maior bancada. A indicação integraria um acordo mais amplo que inclui a recondução de Alcolumbre e de Hugo Motta. No mesmo pacote, Lula avalia levar Gleisi Hoffmann (PT) para uma vaga no TCU.

A cadeira de Barroso é só a primeira. Até 2030, Lula poderá indicar mais três ministros ao STF, nas aposentadorias compulsórias de Luiz Fux, Cármen Lúcia e Gilmar Mendes, além de pelo menos seis ao Superior Tribunal de Justiça. Todos dependem de aprovação do Senado. Depois de Messias, cada uma dessas vagas virou moeda de negociação com quem controla o plenário.

Na Esplanada, o movimento é o mesmo. No terceiro mandato, o Centrão ocupou pastas como Transportes e Cidades, com o MDB, Turismo e Comunicações, com o União Brasil, Esporte, com o PP, e Portos e Aeroportos, com o Republicanos. Em setembro de 2025, União Brasil e PP anunciaram a saída do governo e mandaram seus filiados entregarem os cargos. Agora, segundo a CNN, os três partidos que apoiaram Flávio procuram o Planalto para manter ou recuperar espaço. O MDB, de acordo com O Tempo, oferece 30 votos no Congresso, e o ex-governador do Pará Helder Barbalho (MDB) é cotado para um ministério. A meta dos aliados de Lula é fechar a equipe até 20 de dezembro.

Agora o contraponto. Há sinais de que Lula quer dar ao Centrão mais espaço sem entregar o centro do governo. Os nomes cotados para as pastas que comandam a gestão são petistas: Rafael Fonteles, governador reeleito do Piauí, para a Fazenda, e o senador Camilo Santana (PT-CE) para a Casa Civil. E a regra anunciada para a partilha é diferente da atual. Segundo O Tempo, o tamanho da fatia de cada partido vai depender do compromisso de votar com o governo, e não do tamanho da bancada, como no terceiro mandato.

O desembarque de União Brasil e PP em 2025 ajuda a explicar a mudança. Os dois partidos tinham ministérios e mesmo assim votaram contra o governo quando lhes conveio. Lula aprendeu que cargo sem compromisso não garante nada. Condicionar a pasta ao voto é uma tentativa de cobrar a conta antes. Mas a própria regra confirma a tese: só se negocia nesses termos quem precisa do voto alheio para governar.

Por que desta vez é diferente

Parte da explicação é aritmética. Com 28 senadores, o PL não aprova nada sozinho, mas chega perto de travar o que exige maioria qualificada. Uma emenda à Constituição precisa de 49 votos no Senado, e a PEC da Segurança, da qual depende a criação do ministério cotado para Camilo, é uma delas. Sem o Centrão inteiro do lado do governo, não há conta que feche.

Outra parte é institucional. No terceiro mandato, o Senado foi o lugar onde Lula se protegia da Câmara de Arthur Lira (PP-AL). A rejeição de Messias mostrou que essa proteção acabou. Agora o Senado decide as quatro vagas do Supremo, as do STJ e as do TCU, e decide com uma oposição mais forte do que antes. Quem tem a chave dessas votações é Alcolumbre, e ele sabe o que quer em troca.

E há o calendário. Lula não pode disputar outra eleição. O quarto mandato é o último, e o legado dele depende do que conseguir aprovar e de quem deixar no Supremo. Fonteles, Camilo e Haddad são tratados como possíveis candidatos do PT em 2030, e nenhum deles chega lá com um governo paralisado. Para quem não vai mais pedir voto, a governabilidade vale mais do que a pureza da coalizão.

Para quem acompanha 2027

Nada disso significa que Lula entregou o governo. Coalizão é a regra do sistema brasileiro, e o governo argumenta que não há outro jeito de aprovar nada com o Congresso que saiu das urnas. A oposição chama a mesma coisa de fisiologismo.

O erro está em medir o tamanho do Centrão apenas pelo número de ministérios. A conta real passa pelo que não aparece na foto da posse: as quatro vagas do STF, as do STJ e do TCU, a presidência das duas Casas e o comando das comissões.

Nos próximos meses, três perguntas dizem mais sobre o quarto mandato do que qualquer discurso. O nome de Pacheco chega ao Senado antes de fevereiro? Quantos ministros do novo governo vêm de partidos que apoiaram Flávio Bolsonaro? E o PT consegue manter Fazenda e Casa Civil fora da mesa de negociação?

Lula ganhou a eleição com 3,5 pontos de vantagem. No Senado, a vantagem é de outros. O quarto mandato vai ser governado a partir dali.

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