Acusado de favorecer banco, presidente do Paraguai renuncia
Santiago Peña foi acionista do grupo dono do Ueno Bank, que sofreu intervenção e deixou cerca de 3 milhões de clientes sem acesso ao dinheiro. Abandonado pelo próprio partido e diante de um pedido de impeachment, anunciou a saída enquanto o guarani caía e a crise chegava à fronteira com o Paraná.

O presidente do Paraguai, Santiago Peña (Partido Colorado), anunciou nesta quinta-feira (5) que vai deixar o cargo. A decisão foi comunicada numa mensagem gravada e publicada no X, enquanto a Câmara de Deputados abria a sessão para debater o pedido de impeachment contra ele.
"Tomei a decisão de apresentar minha renúncia à Presidência da República. O que faço é pensar na estabilidade do nosso país, na paz social e na necessidade de preservar nossas instituições democráticas", disse. Segundo o jornal argentino La Nación, Peña também pediu desculpas à população.
O banco que derrubou o presidente
A crise começou na terça-feira (3), quando o Banco Central do Paraguai interveio no Ueno Bank, banco digital do Grupo Vázquez, após identificar um déficit de solvência ligado a empréstimos para empresas do próprio grupo. Os depósitos foram congelados. Segundo a CNN Brasil, cerca de 3 milhões de clientes ficaram sem acesso ao dinheiro, o que, pelas contas da Bloomberg Línea, significa um em cada três paraguaios. O banco também guardava recursos públicos, inclusive do instituto de previdência social, o IPS. As estimativas variam entre US$ 355 milhões (Bloomberg) e US$ 850 milhões (CNN e La Nación) em fundos públicos.
Peña foi acionista do grupo controlador do banco até março de 2025. A oposição o acusa de conflito de interesses e de omissão do Banco Central. Oito diretores foram presos, entre eles o presidente-executivo Miguel Vázquez, e o Ministério Público acusou formalmente 27 pessoas. Houve protestos e confrontos com a polícia em Assunção.
O pedido de impeachment foi apresentado por 35 deputados da oposição, sob acusação de mau desempenho das funções. O golpe final veio do próprio partido. Horacio Cartes, ex-presidente e líder do Partido Colorado, que foi padrinho político de Peña, anunciou que a sigla apoiaria o processo: "Não estaremos do lado do roubo dos fundos públicos, privados e dos aposentados".
Quem assume
Pela linha sucessória, o vice-presidente Pedro Alliana deve completar o mandato, que termina em agosto de 2028. Mas a sucessão ainda não está resolvida. Até a publicação desta reportagem, o Congresso não havia aceitado formalmente a renúncia e podia optar por seguir com o impeachment, o que, dependendo da interpretação da Constituição, pode retirar a imunidade de Peña. Alliana também enfrenta um pedido de impeachment na Câmara.
O que muda para o Paraná
O Paraná divide fronteira com o Paraguai, e a ligação mais intensa passa por Foz do Iguaçu e Ciudad del Este, onde comércio, trabalho e estudo atravessam a Ponte da Amizade todos os dias. O primeiro efeito já apareceu no câmbio. Segundo a Bloomberg Línea, o guarani caiu 5,2% e chegou a ser negociado a 6.525 por dólar. Os títulos da dívida paraguaia também recuaram.
Ainda não há levantamento sobre quantos brasileiros têm dinheiro no Ueno Bank ou negócios afetados pela intervenção. A Asoban, associação dos bancos paraguaios, afirma que o restante do sistema segue operando normalmente, apesar de relatos de falhas em aplicativos na quarta-feira (4).
Quem tem conta, empresa, imóvel ou família no Paraguai deve acompanhar os comunicados do Banco Central do Paraguai sobre o pagamento do seguro de depósitos, acelerado por uma lei aprovada pelo Congresso na quarta-feira, e as orientações dos consulados brasileiros. Os próximos passos são a decisão do Congresso sobre a renúncia, a posse do sucessor e o andamento das investigações sobre o banco.
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